Noção de reciprocidade norteia individual de Lucia Laguna no MAR

(Rio de Janeiro, RJ)

A trajetória de Lucia Laguna, indicada ao Prêmio PIPA em 2011 e 2015, é, no mínimo, idiossincrática. Nascida em Campos dos Goytacazes, ela lecionou Português e Literatura em uma escola municipal até os 52 anos, quando se aposentou. Foi só então que, matriculando-se na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, começou a pintar. Hoje aos 75 anos, a artista tornou-se uma espécie de fenômeno entre os colecionadores, acumulando passagens por galerias e museus ao redor do globo. Entre elas, a individual que inaugura amanhã, dia 29 de novembro, no Museu de Arte do Rio (MAR): “Enquanto bebo a água, a água me bebe”, com curadoria de Cadu (vencedor do Prêmio PIPA 2013) e Clarissa Diniz.

A proposta de reciprocidade não é restrita ao título da mostra: também o processo de Lucia envolve uma constante troca, dessa vez com uma equipe de ajudantes que, de acordo com uma orientação inicial da artista, pintam as primeiras camadas de seus quadros. Atualmente, a pintora tem o auxílio de Lucia Sumara Rouff, Cláudio Santos, Cláudio Tobinaga e Davi Baltar, mas já passaram por seu ateliê Pollyanna Freire, Rafael Alonso, Arthur Chaves e Tatiana Chalhoub. Como escreve Jailton Moreira, autor do texto de introdução à mostra, a contínua interlocução instaura um sistema em que “permeabilidade é condição, improviso é resposta”.

Na exposição, que reúne quase trinta trabalhos produzidos entre 2004 e 2016, figuram os temas do dia-a-dia urbano que tornaram a artista conhecida (“a inteligência estética das favelas, o subúrbio, o trânsito, a arquitetura do espaço coletivo”) misturados a um orientalismo pop “bem distante dos exemplos dessa influência na história da arte brasileira”. Para Moreira, as referências e assuntos tão distintos resultam em pinturas onde o conflito é constante, muito diferentes da plácida estabilidade que o título sugere: “basta observarmos sua pintura para ver que essa tranquilidade é conquistada e mantida por uma peleja constante – uma construção e desconstrução cotidiana feita a cada golpe de pincel.”

“Enquanto bebo a água, a água me bebe” fica em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR) até fevereiro do ano que vem. A abertura da individual, que acontece amanhã entre 10h e 17h, conta também com uma conversa com os curadores, Cadu e Clarissa Diniz, às 15h, onde os dois discutem com o público sobre os núcleos e o processo curatorial da exposição.

 

“Enquanto bebo a água, a água me bebe”, de Lucia Laguna
Curadoria por Cadu e Clarissa Diniz
Em cartaz de 29 de novembro de 2016 até 26 de fevereiro de 2017
Abertura: 29 de novembro, 10h (conversa com os curadores às 15h)

Museu de Arte do Rio (MAR)
Praça Mauá, 5 – Centro
T:  (21) 3031-2741
Funcionamento: seg—dom, 10h às 18h



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