Lançamento do livro “Olhar à margem” de Luiz Camillo Osorio

(Rio de Janeiro, RJ)

Luiz Camillo Osorio
, curador do Instituto PIPA, junto com a SESI-SP editora, lançam o livro “Olhar à margem”, na próxima terça-feira, 13 de dezembro, na livraria Argumento. Reunindo textos publicados ao longo dos últimos 20 anos no Brasil e no exterior, Osorio navega entre diferentes formas de escrita (teórica, ensaística, conversas) para falar sobre a arte contemporânea brasileira.

Leia na íntegra a entrevista exclusiva concedida à revista CULT:

– Como a sua trajetória, pessoal e profissional trouxe você até o lançamento de “Olhar à margem”?
LCO – Minha trajetória tem se desenvolvido desde o começo na articulação da academia com o mundo da arte. Quando terminei meu mestrado em filosofia – tratando da estética de Kant e suas reverberações na arte moderna – tive vontade de desdobrá-la em uma exposição – realizada em 1991 com o título Gravidade e Aparência. A convivência com os artistas e com a arte sempre foi um estímulo sem o qual minha escrita, minha pesquisa na universidade e meus projetos curatoriais não aconteceriam. Em 1997 comecei a fazer crítica de arte para o jornal O Globo, tarefa que exerci por quase 10 anos. O texto curto e direto da crítica jornalística foi fundamental para soltar a escrita acadêmica e ganhar alguma fluência. Em 1998 terminei meu Doutorado em filosofia na PUC-Rio e sou professor universitário desde 1994 (primeiro na UNIRIO e agora na PUC-Rio). Desde então mantive esta dupla inserção, tendo sido do conselho curador do MAM-SP entre 2005 e 2008 e curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015. Sempre produzi textos para livros, revistas, catálogos de arte e periódicos acadêmicos. Esta mistura faz com que a produção seja mais dispersa, mas ao mesmo tempo ela ganha canais de circulação mais variados. A atuação entre instituições e formas de escrita caracteriza minha trajetória e marca este livro.

– Como surgiu a vontade de juntar seus textos na reunião de “Olhar à Margem”?
Como falei acima, ao longo destes últimos 20 anos fui produzindo textos para publicações aqui no Brasil e no exterior e este material fica todo disperso. Reuni-lo veio da vontade de dar alguma visibilidade a esta convivência estreita com a arte, os artistas e o meio de arte. Não foram incluídas as críticas que escrevi para a imprensa, pois são textos mais de circunstância e de fôlego curto. Inseri algumas resenhas de livro feitas para jornal quando parecia ajudar a situar melhor o leitor dentro da formação do meu olhar crítico. As três partes que constituem o livro – a primeira de delimitação de um território crítico-teórico, a segunda de ensaios específicos, produzidos em contextos variados, sobre a trajetória de uma série de artistas (de Flavio de Carvalho a Laura Lima) e a terceira de conversas minhas com artistas e críticos/curadores – apresentam formas diferentes de aproximação da arte contemporânea brasileira reunidos sob um mesmo olhar e uma mesma subjetividade crítica.

– Por que o foco do seu trabalho recai na arte brasileira?
Por um lado, pelo fato de acompanhar mais de perto a cena artística brasileira e ser este o foco principal dos meus textos. Por outro, na primeira parte do livro, onde situo um território teórico-crítico, interessa-me discutir o que há de Brasil na arte brasileira. Ou seja, como a nossa formação cultural moderna – entre ser e não ser ocidente, ser e não ser moderno – produziu poéticas singulares que deslocam as narrativas hegemônicas da modernidade. Como disse na introdução, não se trata de recuperar qualquer espírito nacionalista, não se trata de fazer qualquer apologia a um modo de ser “nosso”, mas de se perceber em que medida, ao discutir como viemos a ser o que somos, podemos construir modos de ser distintos e mais adequados ao que queremos vir a ser. Tendo a arte, claro, como fio condutor neste debate.

– O que caracteriza a arte brasileira contemporânea?
Esta é uma pergunta difícil, pois não só da adversidade (como dizia Oiticica) mas também da diversidade vivemos. Não só a arte brasileira, mas a arte contemporânea em geral. Isso é bom, há que se lidar com as obras e as poéticas caso a caso, na sua singularidade e nas articulações formais, históricas e culturais que elas propõem. O que vejo no Brasil, é que temos várias microcenas concomitantes que põem em contato temporalidades distintas e expectativas de sentido heterogêneas. Temos uma produção popular que ainda resiste à apropriação do espetáculo e do entretenimento, temos grupos étnicos ainda não completamente aculturados, temos um passado afro-brasileiro a ser potencializado e a mistura em certa medida cheia de atritos disso tudo é parte de nossa singularidade – reverberando fortemente na produção de arte contemporânea.

– Considera-se que a arte contemporânea tenha começado, como período, na metade do século XX. Ainda faz sentido considerarmos as produções artísticas atuais como contemporâneas, ou já estamos caminhando para algum outro tipo de produção?
Estas periodizações normalmente complicam mais do que ajudam. Eu diria que desde o final da década de 1960 um certo sentido de modernismo entrou em crise (mas não necessariamente o regime estético que se iniciou na modernidade). A crença no progresso virou “um retrato na parede”, a hierarquia entre territórios populares e eruditos desapareceu, a preocupação com a especificidade dos meios-expressivos deixou de interessar para se explicar o modo como a arte resiste às formas de apropriação cultural e a compreensão do que cabe à arte em sua potência de inventar mundos foi deslocada. É dentro deste horizonte de crise que devemos reescrever e multiplicar as narrativas da modernidade.

– O trabalho do crítico é reconhecido no Brasil?
O caso brasileiro reflete, dada uma maior precariedade institucional, um problema da crítica na atualidade. Acho que o trabalho do crítico está em fase de transição. A crítica jornalística está em xeque – como o jornal impresso de um modo geral. Os veículos de intervenção crítica estão se transformando o que leva a uma certa redefinição do seu endereçamento público e do que se constitui como esfera pública. Há publicações online por toda parte promovendo algum debate crítico, mas corre-se sempre o risco de delimitação excessiva de nichos especializados e pouco plurais para a circulação deste debate. Este é um campo a ser constituído e pode alargar a geografia dos debates. Vejo, também, a atividade curatorial como um tipo de desdobramento da crítica, em que o exercício da escrita se espacializa na construção de narrativas expositivas. É uma outra forma de produção crítica, mais institucionalizada e menos atritiva. O que importa é que a conversa plural e dissensual sobre arte se mantenha e se renove infinitamente, para além da mera troca informativa e das delimitações do mercado de arte.

– Qual a “margem” pela qual devemos olhar, como sugere o título do livro?
Acho que o olhar à margem deve ser pensado com e sem crase. O Brasil é um país à margem e dentro de um contexto civilizatório em que o “centro” está em crise. O olhar a margem, por sua vez, pretende tão-somente destacar que não há, quando se quer pensar a arte brasileira, qualquer dependência em relação a um suposto centro propagador de ideias, que lugares à margem produzem seus próprios centros, deslocando e reposicionando as referências. O desafio passa a ser o de produzir relações fora da lógica da dependência. Devemos produzir olhares à margem para que se multipliquem os centros e as formas de relação e tradução recíproca entre formas artísticas e temporalidades culturais distintas.

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SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiros e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.

“Olhar à margem” –  Luiz Camillo Osorio e SESI-SP editora
Data: 13 de dezembro de 2016, às 19h
Local: Livraria Argumento
Rua Dias Ferreira, 417
Leblon – Rio de Janeiro 



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