Guilherme Gutman escreve reflexão sobre o texto “Os óculos, o ridículo e o desamparo na arte contemporânea” de Luiz Camillo Osorio

Membro do Comitê de Indicação do PIPA 2016, Guilherme Gutman é médico psiquiatra e psicanalista. Professor adjunto do Departamento de Psicologia da PUC-Rio e professor da EAV – Parque Lage, ambas no Rio de Janeiro. Crítico e curador em artes visuais. Autor do livro “William James & Henry James: filosofia, literatura e vida”.

Aqui Gutman faz uma reflexão sobre o texto crítico exclusivo “Os óculos, o ridículo e o desamparo na arte contemporânea”, de Luiz Camillo Osorio, publicado nos sites do PIPA em agosto de 2016.

Leia o texto na íntegra:

A arte que conforta não é a mesma que angustia: algumas reflexões sobre “Os óculos, o ridículo e o desamparo na arte contemporânea” de Luiz Camillo Osorio.
Por Guilherme Gutman

A arte que conforta não é a mesma que causa angústia.

Helio Oiticica descansava de seu próprio trabalho, olhando longamente para retângulos de uma só cor, que dispunha juntos, ao rodapé do quarto.

Em seu Vocabulário da Psicanálise, Laplanche e Pontalis postulam que:“o estado de desamparo é o protótipo da situação traumática geradora de angústia”.
Mas, em termos menos cifrados, o que seria a experiência de desamparo, senão a decorrência, tão natural quanto terrível, de uma condição na qual o sujeito se sente objeto de um amor parcial, incompleto, insuficiente? Ou mesmo a experiência de não ser objeto de amor algum?

Para o trabalho de elaboração daquilo que foi traumático para o sujeito – e um trauma é sempre alguma modalidade de desencaixe entre o quanto se ama e o quanto se é amado – será sempre preciso construir, desconstruir e reconstruir uma narrativa em que este mesmo trauma esteja de algum modo inserido.

Dito de outra forma, para que seja passível de alguma mediação, é preciso que o trauma se torne um parágrafo, uma frase, um vocábulo que seja, em um tecido de palavras. Só então, talvez deixe de ser como chumbo na malha da linguagem: um peso, uma espécie de presença perturbadora, porque significante desconectado de outros significantes e, por isso, sem o alento mínimo de se aninhar, quando possível em um núcleo de significados.

A esse respeito, Hannah Arendt nos antecede quando em frases tais como “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história” ou “uma narrativa revela o significado sem cometer o erro de defini-lo”, pensa caminhos de vida.

Todos nós neuróticos nos lançamos com prazer no exercício, ora inglório, ora gratificante, da busca de significados para aquilo que, no fundo, sabemos ser sem sentido. Nada é mais eficaz do que a melancolia para nos lembrar que um certo jogo de sentidos eventualmente obtido em um exercício interpretativo (em uma análise assim como na crítica de arte!) será sempre temporariamente apaziguador. 

Em seu “Os óculos, o ridículo e o desamparo na arte contemporânea”, publicado em sua coluna no PIPA, Camillo conta um episódio memorável que se deu no novo MoMA de San Francisco: “Nada (…) fez mais barulho neste primeiro ato do novo museu que a “performance” inesperada de dois jovens (até então) desconhecidos, da cidade vizinha de San Jose, que o visitavam em um dia qualquer das primeiras semanas. Um deles retirou seus óculos, um boné e uma jaqueta e os colocou em lugares pontuais nas galerias, como se fossem “obras de arte”. O primeiro utensílio, os óculos, causou frisson. Pessoas se aglomeraram para observá-lo de perto, comentá-lo, fotografá-lo. Estava armado o circo. Isto é arte, arte é isso – somos todos tolos e fisgáveis por uma blague juvenil!”.

É possível imaginar cada um dos espectadores, vivendo o drama tão momentâneo quanto eterno de, aos olhos de um outro, deslizar entre o sapiente habitué de exposições e o tolo que “não compreende” boa parte da produção artística contemporânea.
Tanto um quanto outro desses personagens imaginários, por vezes desconhecem que a experiência de angústia diante de uma produção não dicionarizada é também a experiência mais forte e a que mais nos coloca a trabalhar.

Prossegue Camillo: “Lidar com este desamparo (causado pela arte contemporânea), assumi-lo e enfrentá-lo faz da crítica algo mais complexo que uma mediação ou interpretação. Não que a crítica não busque interpretar o que se passa ao sermos convocados pela arte. A interpretação, no entanto, é um deslocamento, uma vontade de sentido em busca de uma linguagem que traduza o intraduzível. A interpretação crítica seria, assim, uma tradução sem original – uma construção que desloca e recria aquilo que a mobiliza: a obra”.

O crítico de arte da revista The New Yorker – Peter Schieldahl – sem que tenha pretendido “resolver o caso dos adolescentes de San Jose”, foi corajoso como é necessário que um crítico o seja e lançou-se ao risco de colocar esse algo em palavras: “são um objeto feito para ampliar a visão, colocado ali como algo para ser visto. Estando à altura dos pés, os óculos estavam divorciados de sua função e protegidos apenas pelo protocolo do não me toque dos museus”.

É inquietante pensar que tanto no momento em que a brincadeira dos jovens é desmascarada, quanto na interpretação de Schieldahl em que ele aposta que as pessoas teriam visto arte naquilo que nunca o quis ser, nosso conforto é apenas parcial.

Há o constrangimento em notar – desde o ato inaugural de Duchamp – que a arte se torna arte também quando um museu ou um crítico de renome assim a anunciam.
Apenas a título de provocação, lembremos artistas como Bispo do Rosario, que nunca se pensou artista, mas que além do trabalho de seu delírio – apresentar o mundo a Deus no dia do juízo final – realizou um trabalho visual de grande potência.

Diferente da “blague juvenil”, O delírio é o trabalho por excelência nas psicoses, correspondendo à tessitura de um novo mundo e de um novo eu, já que a experiência de enlouquecimento desmanchou, cindiu, colocou em derrisão o que antes era o mundo em que se vivia. A tessitura narrativa da construção delirante guarda conexões relevantes com modalidades de criação.

Para Bispo, a missão de apresentar o mundo a Deus, realizando, para tal o tour de force psíquico que toda construção narrativa delirante e sistematizada pede, partiu de uma espécie de mandamento-vetor, que o compelia a trabalhar.

Tal como disse, certa vez, Helio Oiticica a Lygia Clark, o artista visual forte não tem opção; há sempre algo que se impõe a ele como trabalho. O artista é constrangido à criação, ao fundo de seu desejo, ao que lhe resta como mais idiossincrático, mais particular, ainda que a alto preço.
Tal como o delirante, dedica-se a seu trabalho e é artista porque não lhe seria possível tornar-se qualquer outra coisa.

Leia o texto crítico exclusivo ““Os óculos, o ridículo e o desamparo na arte contemporânea””, de Luiz Camillo Osorio. 

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