“Experimentação e Visualidade na Poesia” celebra 60 anos da Poesia Concreta

(São Paulo, SP)

A Baró Galeria apresenta, do dia dia 12 de setembro até 22 de outubro, a exposição “Experimentação e Visualidade na Poesia”. Com esta mostra, a Baró Galeria presta uma homenagem aos 60 anos da Poesia Concreta e traz obras de poetas e artistas que vem contribuindo com a experimentação e a visualização da poesia. Participam desta mostra obras dos artistas Almandrade, Arnaldo Antunes, Gastão Debriex, João Bandeira, Júlio Mendonça, Lenora de Barros, Lula Wanderley, Omar Khouri, Paulo Miranda, Regina Vater, Walter Silveira, Tadeu Jungle, Xico Chaves e Gil Jorge.



“É verdade que os trabalhos reunidos nesta mostra poderiam encontrar explicação na herança daqueles movimentos que desde os anos 1950 vêm confrontando a visualidade urbana, da Poesia Concreta ao Neoconcretismo e ao Poema/Processo.

No entanto, talvez seja possível arriscar um raciocínio contrário àquele que traria, de antes para agora, uma justificativa para esta exposição baseada em uma já conhecida “linhagem” construtiva do modernismo à brasileira.

Se por um lado a presença de operações sobre palavras, signos, sinais se mantem presente em boa parte das obras aqui expostas, por outro, é preciso reconhecer que muitas vezes essas coisas feitas de caracteres vêm de um tempo posterior ao tempo do texto escrito, colhidas em sua naturalidade urbana já aos fragmentos ou já desinflamadas de sua vocação comunicativa.

Às vezes, trata-se de ver tais caracteres aparecerem descamados em lambe-lambes ou restos de outdoors; outras vezes, na espessura das pichações; ainda outras, na dicção inflada das portas de banheiro, nas caixas de textos de histórias em quadrinhos, na espacialização dos luminosos. Quando não aparecem deslizando para a música, fazendo sentido apenas quando vocalizados ou submetidos à cadência da fala, e esta, de repente, intuída no simples movimento de uma única linha ou no aparecimento de escorridos, derivações, manchas, rebatimentos – elementos formais que arrastam consigo índices materiais de uma vida útil anterior no espaço urbano, e que contrariam, portanto, qualquer ascese da linguagem.

Não é que esses trabalhos tenham abdicado do pulso autônomo no trato com a linguagem. Ao contrário, eles são desde sempre cientes da precedência da leitura sobre qualquer imagem, admitem de antemão que a forma das coisas vistas, sua estrutura, habituou-se de modo demasiado decisivo a uma autocompreensão linear e da esquerda para a direita.

Mas tais trabalhos parecem preferir, aos malabarismos – mesmo os mais precisos – das serifas e sem serifas de fontes e aos vai-e-vem tectônicos da poesia na página, o encaixe temporário e repleto de restos de uma letra que se estica para servir a duas linhas sobrepostas de palavras; preferem, para assinalar ênfase, a tinta que engorda do que o acento; a eficácia paralinguística da silhueta feita da conjunção de parênteses e pontinhos e o jogo de dados na irregularidade da pedra de calçamento do que qualquer ascendência produtiva ou educativa do design.

Se não se pode contrariar o sentimento de insight ou o alívio imediato que se tem sempre que o sentido das coisas espreita (“Ah! Um pedaço de palavra!”; “Ufa! Não uma linha, uma paisagem!”), pode-se, contudo, buscar uma dessublimação ou um reencontro com uma dimensão erótica do texto – um “fatalmente texto”, aquele que não vem antes da caligrafia, aquele que traz pra dentro de seu significado o lugar social ao qual pertenceram os materiais com os quais se enuncia.

Talvez seja esta dimensão a posteriori, antes de que uma filiação qualquer, aquilo com que esses trabalhos atinam quando confrontados à experiência concreta da poesia brasileira ou à verve construtiva da tradição da arte moderna: a materialidade do texto, a estrutura perspéctica das coisas brutas, esses problemas que obrigam o passado a voltar mais uma vez, a se tornar novamente disponível.”

Carlos Eduardo Riccioppo

“Experimentação e Visualidade na Poesia”, coletiva com Almandrade, Arnaldo Antunes, Gastão Debriex, João Bandeira, Júlio Mendonça, Lenora de Barros, Lula Wanderley, Omar Khouri, Paulo Miranda, Regina Vater, Walter Silveira, Tadeu Jungle, Xico Chaves e Gil Jorge
Abertura: 12 de setembro
Em cartaz até 22 de outubro

Baró Galeria
Rua Barra Funda, 216 – Barra Funda – São Paulo – SP
Visitação:Terça à sexta-feira, das 10h às 19h
Sábado, das 11 às 16h
T: +55 11 3666-6489



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