Conversa com Gustavo Speridião, por Luiz Camillo Osorio

O curador do Instituto PIPA Luiz Camillo Osorio, conversou com Gustavo Speridião – finalista do PIPA 2016 – sobre sua formação, processo produtivo, a importância da experiência pictórica em suas obras e os desafios que surgem para um trabalho político se inserir no mercado de arte.

Leia na íntegra a entrevista publicada com exclusividade aqui no site do Prêmio:

 

Conversa com o finalista Gustavo Speridião, por Luiz Camillo Osorio

 

1 – Gustavo fale um pouco sobre sua formação. Sei que estudou na EBA-UFRJ, uma escola mais tradicional que vem passando por algumas mudanças nos últimos anos. Como foi este período e a convivência com a geração de alunos que esteve lá no mesmo momento que o seu, uma vez que parte importante do que se leva de uma escola de arte são as relações que se constituem ali dentro.

Eu comecei em 1997 cursando História da Arte na UERJ (Licenciatura) e durante 3 anos cursei as duas universidades ao mesmo tempo. Eram cursos diferentes que se complementavam em prática e teoria. Na UERJ, alguns professores foram muito importantes para minha formação: Gustavo Schnoor, Cristina Salgado, Roberto Conduru e Vera Beatriz. Mas foi na EBA-UFRJ que me formei e fiz também o Mestrado em Artes Visuais (PPGAV-UFRJ) e onde passava mais tempo por causa do atelier (Pamplonão).
Quando entrei na UFRJ, ocorria a greve nacional das universidades (1998). Na UFRJ a luta era também contra o Reitor imposto por FHC: Vilhena. A Reitoria estava ocupada. Vi a tropa de choque do lado de fora e os estudantes dentro da Reitoria reunidos fazendo assembléia para decidir “o que fazer”. Foi uma imagem importante para mim. Logo depois comecei a me organizar como militante e me tornei trotskista e passei a lutar pela revolução socialista mundial.
O Pamplonão, era um lugar muito destruído. Caiam pedaços do teto, alagava com facilidade e haviam pulgas, ratos e urubus freqüentando o local. Não havia banheiro nem água. Eram precárias as condições dos cursos de Pintura/Gravura/Escultura. Foi aí nesse “porão” que a universidade esqueceu da Eba, que se formaram muitos artistas como Pedro Varella, Carlos Contente, Carolina Dalmeida, Rosa Antunes, Julia Cseko, Risoflora, Lara Lima, as pessoas da chapa para centro acadêmico “Da Lama ao Caos”. Produzimos cartazes políticos/dadaístas e os nossos embates não eram apenas por mais verbas, reformas e bandejão. Nós todos, cada um da sua maneira, lutamos também por mudanças na idéia de um curso para formação de artistas, por atualizações e também para combater ideologias artísticas reacionárias (e que ainda existem por lá) que defendem um tipo de Academia Imperial de Belas Artes.
Foi na EBA que vi artistas em períodos diferentes com produções diferentes. Pedro Sanchez, Andrei Muller, Flávio Vasconcellos, Karina Toulois, Carlos Contente e Thiago Pitta, Pontogor, Vijai Patchineelam, André Amaral, Guga Ferraz, Alexandre Vogler, Bruno Miguel, cada um em sua busca em seus grupos, varias pesquisas experimentais combinadas e resultados diferentes, com sucata, lixo institucional, com carimbos, guitarra, sons, adesivos, estêncil, lambe lambe, xilogravura, litografias, spray, lonas, pinturas grandes, pichações, vandalismo estético, telas esticadas diretamente na parede, e foi por ai que eu aprendi muita coisa. Foi um ambiente “meio ocupação” e justamente por isso mais “livre” e com disputas ideológicas que deixaram tudo mais divertido e pudemos explorar muito mais possibilidades na produção. Eu tive excelentes professores nesse período: Julio Sekiguchi, Suzi Coralli, Chang Chi Chai e Carlos Zilio.

2 – Você foi assistente do Zílio. Um pintor que teve uma trajetória marcada tanto pelo enfrentamento político na ditadura, pela pesquisa acadêmica iniciada na França durante o exílio e, principalmente, pela dedicação ao trabalho pictórico, à luta diária com a tela, as tintas, a história da arte e a necessidade expressiva. O que significou a convivência no ateliê com este artista na sua formação.

Foi uma honra trabalhar e conviver com um militante e um artista revolucionário que admiro profundamente.
Em 2002, quando era estagiário no MNBA, li o livro do Zilio “Arte e Política” e achei a entrevista com ele muito impressionante, pela posição política radical na arte e na luta de classes. Não sabia que ele era professor na EBA. Um dia na primeira aula com o Julio Sekiguchi, ele pediu uma lista de artistas brasileiros preferidos, escrevi Goeldi, Iberê, Zilio, Guignard, Amilcar de Castro. Tempos depois fui chamado para trabalhar como assistente no atelier da Rua das Palmeiras. No primeiro dia de trabalho estava o Felipe Barbosa e o Carlos Zilio retirarando uns bancos pesados de bonde e os cavaletes de pintura do Iberê Camargo que ainda estavam lá. Ele disse que o trabalho no atelier seria pesado e uma das primeiras frases que ouvi foi “O único que se libertou com a revolução industrial foi o cavalo”.
Não falávamos muito de pintura. Falávamos mais de política. Aprendi sobre os anos sinistros. Sobre os tempos de DCE e do Mario Prata, da clandestinidade e da prisão. Disse a ele que era trotskista… Ele riu e disse que apesar de tudo, quem derrotou o nazismo foi Stalin. Eu disse que a URSS derrotou o nazismo apesar do Stalin e assim iam as conversas. A minha formação com Zilio foi por aí. Ele contestava diversas vezes a minha opinião e atuação política e confrontava a questão da liberdade artística com os métodos bolcheviques. Debatemos sobre guerrilha ou movimento de massas. Marx ou Wittgenstein. Ouvia sobre os debates que teve com Ferreira Gullar e principalmente o que significou o fim da União Soviética. No meio disso aprendi algumas coisas sobre Barnett Newman e Cézanne, mas queria saber mesmo é da revolução, como foi e como será, talvez.
Aprendi também sobre as mudanças na tática e na estratégia, de sua militância “bauhaus” através da educação artística nos cursos aqui do Rio. Ouvi muitas histórias das conversas com Mário Pedrosa e das aulas com Iberê Camargo.
O Zilio tem uma maneira ácida e irônica de analisar a realidade. Muita coisa desse comportamento eu vejo no meu trabalho artístico.

3 – Sua pintura está atravessada por uma urgência e um ruído urbano que em alguma medida contrasta com o tempo convencional da experiência pictórica. O ateliê versus a rua. Como você vê o lugar da pintura na sua obra e em que medida ela é importante na sua poética e na política inerente a ela.

A princípio, eu trabalho coma produção de uma imagem. Imagem em movimento, impressa, apropriada, pintada, escrita, desenhada. A pintura; tinta sobre tela, é suporte mais utilizado para este trabalho com a imagem por diversos fatores práticos de produção de imagem bidimensional, mas é na carga histórica e conceitual que sua importância está colocada pois nela estão acumulados séculos de discussão sobre o poder da imagem para a humanidade. Sobre este suporte convencional são criados meu jogos poéticos de idéias e formas. Mas o motivo pelo foco na pintura não é o teórico apenas.
Eu busco na pintura a essência de onde tudo começou: o desenho, a abstração de uma idéia. É o rabisco no papel. É a pintura na caverna. É um “Existir”.

4 – O que te move no seu processo produtivo? Para quem fala sua obra?

Essas perguntas são tão importantes e eu não sei responder nenhuma delas.

5 – Como lidar com uma ambição política que quer mudar tudo hoje e um compromisso da arte em ir além do agora, em resistir mesmo ao presente? Como falar para o seu tempo sem reduzir sua potência expressiva à ilustração de causas pontuais? Há algum dilema dessa ordem no seu trabalho cotidiano?

Essa questão é muito interessante. Existe esse dilema sim entre trabalho panfletário e um trabalho mais abrangente na minha produção. Prefiro mais o panfletário. Às vezes, por ser extremamente específico ilustrativo e pontual pode surgir algum mecanismo que o torna interessante. Todas as lutas pontuais do nosso cotidiano contêm dramas profundos da existência humana.
Mas também questões oníricas, poéticas e frívolas da vida me interessam tanto quanto uma nova sociedade socialista.
o importante nesta questão é que para mim a ambição de mudar o mundo, de destruir o capitalismo e construir um mundo socialista não é atraves de poética e sim da luta de classes, direta, crua, bruta, com greves, ocupações, conquistas de direitos, autodefesa, derrubada de governos, tomada de poder.
Também não acredito nesse dilema temporal. Todos nos vivemos o nosso tempo e a noção de uma criação artística atemporal é um idealismo contemporâneo. Esse compromisso de ir além do aqui e do agora é uma invenção. Não acho que é uma verdade a arte ter que ir além do agora. Acho que é possível sim tentar expressar com menos atraso as demandas de nosso tempo atual. Toda geração tem sua poética, sua estética, marcada de alguma maneira pelo cotidiano.

6 – Quais os desafios que surgem para um trabalho político se inserir no mercado de arte?

Tanto faz um trabalho de arte político anticapitalista, revolucionário ou reformista, todos têm a tendência, já constatada historicamente, de serem absorvidos pelo capitalismo, que é flexível o bastante para fagocitar tudo que é superficialmente antagônico a ele.
Os artistas protestam, assumem posturas políticas, através de sua produção artística. Isso são sintomas de uma crise política crescente no mundo. É um efetivo meio de protesto na esfera da idéia, na esfera do subjetivo, mas não da ação objetiva pois será diluído no oceano corrosivo da cultura de massas.
Difícil para o capitalismo é fagocitar ações como greves gerais, poderes duais e movimentos revolucionários por exemplo.

7–Você concorda com a sentença bastante repetida ultimamente de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?

Não concordo. Concordo é com a frase antiga: Socialismo ou barbárie.
O capitalismo não é um sistema eterno e natural. É justamente ele que irá acabar com a nossa espécie se não for destruído já.

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Sobre o autor

 

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiros e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.



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