Entrevista com a finalista do PIPA 2016 | Conheça Clara Ianni

Anualmente os artistas que participam do PIPA são convidados a gravar uma entrevista em vídeo com exclusividade para o Prêmio. Com elas conhecemos melhores os artistas, suas carreiras, idéias e motivações. As entrevistas são produzidas pela Matrioska Filmes. Conheça Clara Ianni, a finalista do PIPA 2016, também indicada em 2015 e 2014.

O curador do Instituto PIPA Luiz Camillo Osorio, conversou com a artista.

Leia na íntegra a entrevista publicada com exclusividade aqui no site do Prêmio:

Conversa com a finalista Clara Ianni, por Luiz Camillo Osorio

1 – Sua formação mistura o bacharelado e doutoramento em artes visuais com cursos de antropologia da imagem e também algumas intervenções curatoriais. Como você percebe a relação entre teoria e prática na sua obra?

A arte é uma forma de relação. Penso em arte no seu sentido contextual e acho que seus assuntos e métodos estão em permanente diálogo com algo que está fora do próprio campo da arte. É pela vida, em suas diversas manifestações, que a arte está informada. Essa divisão de campos do saber e do fazer humano, a especialização e distinção em diferentes áreas, é uma maneira historicamente construída de compreendê-las. Eu procuro ver as coisas em relação. Quanto å relação entre teoria e prática, penso que são dois modos de fazer e falar da mesma coisa,
maneiras de elaborar e desdobrar as questões que impulsionam minha pesquisa. Apesar de assumir formas diferentes, são jeitos de colocar e propor perguntas semelhantes. Me instiga explorar a multiplicidade das formas que uma inquietação pode tomar.

2 – A dimensão crítica em seu trabalho assume, a meu ver, duas possibilidades distintas de formalização, seja enquanto deslocamento poético, seja enquanto empoderamento político. No primeiro caso, ela produz intervalos entre o ver e o dizer, no segundo, ela cola o ver e o dizer naquele que ganha voz através do trabalho. Penso como exemplo do primeiro caso, Natureza-Morta ou estudos para pontos de fuga, de 2011 e do segundo caso o vídeo Mães. de 2013. Seriam duas políticas da arte – uma enquanto intervalo/desconexão e outra enquanto conscientização. Você concorda com essa distinção?

É interessante sua maneira de ver os trabalhos. Talvez não tivesse pensado nesses termos, mas penso também em duas frentes, ainda que elas frequentemente se confundam. Uma mais analítica, por assim dizer, que através do reconhecimento, da decomposição e da montagem de um determinado material ou processo, cria-se uma leitura aberta, crítica, ou reflexiva. Pensar como as imagens, as formas e os discursos são criados, como são materializados, produzindo um distanciamento pela desnaturalização. A outra frente, mais propositiva, instituinte, busca utilizar a arte como instrumento e plataforma para a criação de encontros. É um modo de criar espaços alternativos de enunciação, de sensações, de outros imaginários possíveis. Produzir distâncias pela aproximação.

3 – Se tomarmos um outro filósofo, o Adorno, ele distingue uma arte engajada de uma outra autônoma e opõe aí Brecht e Beckett. O engajamento implica uma refuncionalização da arte, já a autonomia assume que a única função social possível é não ter função social. Como você posiciona sua poética-política aí dentro?

Não conheço esse texto, mas a ideia da arte não ter função social não me parece muito evidente. Acho que a arte tem muitas funções, os trabalhos lidando diretamente com isso ou não. Quer dizer, o trabalho de arte pode funcionar como valor, como mercadoria, como signo de distinção social, e também como proposição política, como plataforma para elaboração de outras sensibilidades, por exemplo.
Mas reclamar a arte como um espaço capaz espaço de contestação e negociação de narrativas, implica entender sua autonomia de uma maneira diferente. Quer dizer, não uma autonomia frente å sociedade, como se ela estivesse pairando acima da realidade, enfatizando sua suposta desconexão e desligamento das forças sociais concretas. Acho isso fantasioso. Me refiro å autonomia no sentido da escolha crítica perante as dinâmicas sociais, da capacidade que a arte ainda guarda de propor modos de construir e desconstruir pensamento e negociar espaços, de enunciar diferenças. Claro, consciente das muitas contradições que isso envolve, sobretudo em mundo cifrado pela forma mercadoria. Se a arte é um modo de relação, ela está atravessada pelas tensões e forças de fora do seu campo, e sua autonomia está justamente na possibilidade de anuncia-las, desconstruí-las, fissurá-las. Tenho interesse em agir e produzir a partir desse lugar contraditório, que é o campo da arte. Pensar plasticamente não só suas formas, mas também suas estruturas, suas instituições, seus mecanismos.

4 – Para quem fala o seu trabalho?

Espero que para um grupo heterogêneo de pessoas e tenho trabalhado pra isso. Para além de instituições culturais, tenho também pensado e explorado outras formas de circulação do trabalho. Me interessa muito pensar na circulação como elemento de construção estético político. Sobretudo os vídeo, que permitem essa mobilidade. Submeter os trabalhos a outros contextos, como mostras organizadas fora do circuito da arte, ambientes políticos, jurídicos, acadêmicos, e terapêuticos, foi um meio que encontrei de experimentar ressonâncias dos trabalhos em territórios diferentes.

5 – Quem fala no seu trabalho?

Isso varia, de trabalho em trabalho. Alguns são colaborativos, nos quais há também co-autoria. Outros não. De qualquer maneira, penso no trabalho do artista como um trabalho transversal, capaz de cruzar diferentes perspectivas. Através de deslocamentos, justaposições e montagens de diferentes enunciações, o trabalho da arte pode afetar lugares e funções naturalizadas, tensionando-as. É um trabalho de encontro, de relação, de prática de sentido.

Veja algumas obras da artista:

Assista ao vídeo:

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