Em cartaz | Dirnei Prates se apropriou de passagens de filmes pornográficos e de vídeos exibidos em sites de encontro em nova mostra

(Porto Alegre, RS)

A Galeria Ecarta apresenta, entre os dias 6 de julho e 7 de agosto, a mostra individual “A Noite Barroca”, de Dirnei Prates.

pede-me o que quiseres e eu te darei

Leia o texto da curadora Paula Ramos sobre a mostra:

A arte é o produto da imaginação e o seu fim precípuo é ensinar a exercitar a imaginação. […] A imaginação é superação do limite: sem ela tudo é pequeno, fechado, estático, incolor; com a imaginação, tudo é vasto, aberto, móvel, colorido. Mas isso não está na imaginação em si, e sim no sujeito que se aproxima da realidadee vivencia a experiência, com a capacidade de ver além da coisa em si, de relacioná-la com outras coisas ecom o todo, de situá-la em um espaço e em um tempo mais vastos.
Giulio Carlo Argan, em História da Arte Italiana (Vol. 3). São Paulo: Cosac Naify, 2003, p. 242.

“A frase é de Giulio Carlo Argan (1909–1992), um dos historiadores da arte mais influentes do século XX. Simples e enfática, é também atemporal, embora tenha sido escrita no contexto de uma análise sobre a arte europeia do século XVII, cujo estilo predominante, o Barroco, notabilizou-se por revelar, com eficácia persuasiva, o “grande teatro do mundo”. Naquele momento, a expressão do pathos, ou seja, das paixões, dos excessos e dos assujeitamentos, era a tônica, construindo discursos visuais que envolviam e projetavam a fantasia do espectador.

Dirnei Prates, em A noite barroca, mergulha, com precisão e poesia, nesse imaginário, estabelecendo diálogo com a tradição instaurada por um dos baluartes da arte seiscentista: Caravaggio (1571–1610). O mestre italiano se consagrou pelas cenas sensuais, violentas, tenebristas e ambivalentes. Introduzindo um realismo não idealizado em suas pinturas, escandalizou públicos em vários tempos, ao tomar como modelos pessoas simples, muitas vezes trapaceiros e prostitutas com quem convivia. E esses protagonistas – à margem da sociedade que consumia aquelas mesmas pinturas –, com suas peles carquilhadas, unhas encardidas e pés imundos, além das vidas maculadas por transgressões de toda ordem, frequentemente encenavam gestos de santos e de mártires da Igreja Católica, num curioso paradoxo.

Explorando antagonismo similar, Dirnei Prates se apropriou de passagens de filmes pornográficos e de vídeos exibidos em sites de encontro para evidenciar, a partir da captura e da edição de frames e do uso de títulos relacionados a episódios bíblicos, os contrassensos e a riqueza sígnica das imagens. Matizadas pelo carmim, as composições com fragmentos de corpos reclinados e seminus da série Júpiter, Netuno e Plutão, ao mesmo tempo em que estabelecem parentesco formal com pinturas barrocas, embaralham a percepção, ao se apresentarem sob denominações como O sacrifício de Isaac, Repouso na fuga para o Egito e A deposição. Tal como ocorre nas fotografias, o viés sacro dos títulos mostra-se borrado, turvo; e, tal como o conjunto d’A noite barroca, os títulos constituem ossatura das obras, ao apontar as associações bafejadas pelo artista, sugerindo caminhos de interpretação ao espectador, mas sem restringi-los – pelo contrário, potencializando-os.

A ambiguidade também reverbera da série Pede-me o que quiseres e te darei, projeção de três rostos masculinos em suavíssimo movimento, entre a vigília e o sonho, a dor e o prazer. Registro do momento de gozo, da “pequena morte”, os vídeos concentram-se nas expressões faciais dos atores e estão relacionados à sequência de pinturas representando decapitações, que Caravaggio produziu, no final da vida, quando sua própria cabeça estava a prêmio, depois de ter cometido assassinato em uma briga de rua.

Desdobrando sua pesquisa poética calcada em imagens de imagens, Dirnei Prates nos oferece um banquete barroco pleno de possibilidades e de imaginação: banquete do qual ele também se serve, alinhavando imagens e textos, passado e presente, tradições e experiências; banquete que, em sua coreografia mundana, oferece a vida e suas pulsões como ininterrupto devir.”

“A Noite Barroca”, individual de Dirnei Prates
Abertura: 6 de julho
Em cartaz até 7 de agosto
Entrada franca

Galeria Ecarta
Fundação Ecarta (Av. João Pessoa, 943, Porto Alegre)
Funcionamento: Terça a sexta, das 10h às 19h | Sábado 10h às 20h | Domingo das 10h às 18h
T: +55 (51) 40092970
secretaria@fundacaoecarta.org.br



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