Últimos dias | Sandra Cinto convida ao sossego da reflexão em “Acaso e Necessidade”

(São Paulo, SP)

A Casa Triângulo, recebe até 2 de abril, a exposição individual da artista Sandra Cinto, “Acaso e Necessidade”.

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Leia abaixo texto de Miguel Chaia sobre a mostra:

ARTE E VIDA NO MOVIMENTO DAS ÁGUAS

Ela dá voltas em torno das suas técnicas, suportes, narrativas, esgarça as fronteiras entre pintura e desenho e, ainda, amplifica seu trabalho ao pensar arquitetonicamente, visando estabelecer diálogos com o espaço expositivo e, mesmo historicamente, quando incorpora ao trabalho os acontecimentos ocorridos no lugar geográfico da exposição.

MOVIMENTO LÍQUIDO

Agora, março de 2016, uma experimentação ocorre: a água e as ondas não são apenas metáforas nos trabalhos de Sandra Cinto, não apenas signos visuais agora, a água, enquanto elemento natural, é incorporado pela artista e, também, faz-se presente nas suas qualidades físicas e na potência do seu movimento segundo a lei da gravidade. A água é veículo de pigmentos, ela mancha o suporte e deixa-se escorrer para formatar amplos planos azuis.

A mostra Acaso e necessidade permite recuperar uma série de questões já adiantadas em períodos anteriores, relativas à experimentação de linguagem e à reflexão existencial.

Dois fatos podem ser lembrados para fundamentar uma nova perspectiva de trabalho da artista. O primeiro deles é um trabalho que utiliza uma banheira, na qual Sandra Cinto desenhou e jogou água até certo nível no interior do objeto (de 1999, mostrado na Galeria Tanya Bonakdar, em Nova York). Depois dele, a artista produziu instalações corn uma pia com a torneira pingando, Abrigo impossível, 1999, na Bienal do Mercosul.

O segundo fato marcante, para se chegar à atual exposição, foi urna temporada experimentada pela artista, no final de 2015, no Japão, onde manipulou tecidos e papéis embebidos em água e pigmentos. O japonismo volta agora enquanto vivência cotidiana com a cultura do pais.

Duas grandes pinturas, 2016, de 300 cm por 750 cm, trazem a representação de um lençol de água azul que se esparrama por quase toda a área da tela, como se fosse uma cachoeira suave, formada pela queda do liquido com pigmento. Por traz dessa calda da água, vestígios de montanhas e picos elevados de rochas. A mancha azul. feita pela água para fazer a representação de si. sofre a gravidade e deixa-se tombar. Por sua vez, as rochas da terra se elevam num sentido contrário ao da gravidade. Duas forças se contrapõem, duas direções opostas estabelecem o ritmo de cada tela. O controle construtivo da artista tenta sempre direcionar o fluxo do liquido colorido, mas a água tem potência para seguir direções próprias. O acaso e o inesperado fazem parte da realização dessas telas, tanto quanto o acaso e o inesperado fazem parte da vida. Neste atual processo, Sandra Cinto tem de enfrentar as contingências tanto na arte, quanto no seu cotidiano. Cabe à artista tentar obter sucesso na sua ação, lidando com as contingências. Subjugar-se à força da natureza, porem insistindo na potência do fazer artístico.

A mancha cor azul é que dará as indicações para o (des) aparecimento do desenho das rochas, é ela que delimitará o espaço a ser ocupado pelas canetas. Manchas e linhas, numa dança graciosa e íntima de esconder e entrever. Caberá à artista saber ver e escutar as manchas, descobrir as possibilidades abertas por elas e assumir a coautoria do trabalho. Estabelece-se, assim, uma estratégia artística para reunir o acaso posto pelo fluxo azul da água e a livre decisão de escolha da artista. Apresentam-se, assim, duas vontades para ocupar o plano e construir o espaço e para solucionar as relações entre cheio e vazio.

Pouca área sobra na parte superior das pinturas. O céu é uma faixa parcimoniosa, agora sem as nuvens, uma vez que elas se tornaram líquidas e passam a constituir a generosa cortina azul que ganha a proeminência nas telas. As áreas ocupadas e os pedaços em branco estabelecem valores pictóricos que
atraem demoradamente o olhar. Se anteriormente as ondas do mar eram agitadas e revoltas, agora a cachoeira azul é lisa, transparente e calma. As pinturas ganham uma forte feição monocromática. Elas abrem lugar para o olhar afetuoso. Essas duas pinturas, colocadas frente afrente, expressam a lentidão do fazer e da fruição. Somos colocados diante de paisagens. em grandes panorâmicas, que oferecem um tempo lento: o azul convida a perscrutar; o movimento da cor esparramando-se para baixo é
tranquilizador; e as pequenas partes de terra rochosa são riscadas com maior delicadeza.

Cabe indicar, para futuros estudos. que uma boa parte da obra de Sandra Cinto se presta a ser analisada a partir dos conceitos de vida liquida e vida em fragmentos, conforme colocações de Zygmunt Bauman, autor contemporâneo de vasta bibliografia.

Se, na fase anterior, uma visão trágica emergia, com a volúpia barroca das ondas em vigorosos movimentos, agora, nesta exposição, os três trabalhos convidam ao sossego da reflexão. Esse aspecto está explicitado na branca escultura-instalação A ponte, 2018, de mais ou menos 700 cm por 110 cm, tendo, de um lado, um cavalinho de brinquedo e na outra ponta, uma cadeira de balanço. De um lado o lúdico e o infantil, do outro a solidão e a maturidade, talvez a velhice. A ponte constata o tempo cíclico e alerta para as permanentes travessias na arte e na vida. Convém lembrar que a ponte é um signo e uma forma recorrente na obra de Sandra Cinto, possíveis ou impossíveis de serem atravessadas, mas sempre presentes e inevitáveis. A ponte diz respeito a uma necessidade dos vivos em suas andanças e aventuras à beira dos precipícios, retomando Nietzsche.

Os trabalhos de Sandra Cinto pulsam a vontade de viver, reconhecendo seus limites e contingências. Numa formulação de Friedrich Nietzsche, essa vontade está apoiada numa proximidade da arte como jogo do artista e da criança, construindo e destruindo a inocência e fazendo da arte um meio de brincar consigo mesmo. A ponte, muitas vezes presente nos trabalhos de Sandra Cinto, carrega consigo essas possibilidades de construção e destruição. Ainda, a partir desse filósofo. pode-se considerar que a arte de Sandra Cinto é permeada por sensações, tendo por base um livre lirismo pessoal. E se a fase das ondas agitadas possui um tom dionisíaco, agora, em 2016, suas pinturas, desenhos e objetos aproximam-se de algo apolíneo. Cada vez mais a obra de Sandra Cinto vem reafirmando a potência de Viver.

Há nessa artista uma verdade onírica que, entre outras possibilidades, pode ser rastreada, por ora, pela presença da água na produção dos seus trabalhos seja a representação da água, seja o uso do elemento natural água. Gaston Bachelard, referindo-se à água e aos sonhos, escreve que esse liquido é um elemento poético, presente nos nossos arquétipos. Assim, deve-se considerar que as questões que envolvem a água, permitem uma maior aproximação com o mundo e melhor conhecimento da realidade. A água, que ao se olhar tinge nosso ser com uma melancolia especial, relaciona-se a interesses orgânicos, ao bem-estar e à libido.

Na obra de Sandra Cinto, continuando com Bachelard, em seus devaneios de artistacriança, a água, sempre presente, poderosa, preciosa e seminal é canalizada para a arte para criar um outro mundo, para pensar a mesma vida.

“Acaso e Necessidade”, individual com Sandra Cinto
Abertura: 5 de março de 12h às 19h
Em cartaz de 7 de março até 2 de abril

Casa Triângulo
Rua Estados Unidos, 1324
Funcionamento: segunda a sábado, das 10h às 19h
Telefone: +55 11 3167-5621
info@casatriangulo.com



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