Abertura | “Sete Quedas”, individual de Marcelo Moscheta

(São Paulo, SP)

A Galeria Vermelho recebe, de 22 de março até 16 de abril, a mostra individual “Sete Quedas”, de Marcelo Moscheta.

Marcelo Moscheta

Leia abaixo o texto do artista Gabriel Zimbardi sobre a mostra:
Em sua primeira individual na Galeria Vermelho, Marcelo Moscheta põe em discussão a contenda natureza x intervenção humana.
Na mostra titulada Sete Quedas, Marcelo Moscheta problematiza questões ligadas à passagem do homem por diferentes paisagens do globo e as interferências deixadas por ele como construções, alterações na topografia e a sistematização da divisão do globo terrestre.

A instalação que dá nome à exposição ocupa a sala principal da galeria, e é composta por um andaime de 5 metros de altura e sete desenhos em grafite sobre PVC. As imagens representam sete cachoeiras que, por razões ligadas ao espírito progressista do homem, foram sublimadas de suas paisagens naturais por grandes obras de engenharia. O título e desenhos fazem referencia à história do Salto de Sete Quedas, ou Salto Guaíra, que, em 13 de outubro de 1982, teve suas dezenove cachoeiras (que eram divididas em sete grupos) alagadas para a construção da Usina Hidroelétrica de Itaipú. Tido como o maior sistema de cachoeiras do mundo em volume d’água e considerado um dos maiores espetáculos naturais do planeta, Sete Quedas desapareceu da paisagem para dar lugar ao progresso. No entanto, a comunidade local foi cortada pela metade, já que dependia intrinsicamente do turismo gerado pelas cachoeiras.

A defecção da paisagem pelo homem e, em especial, de sistemas hídricos, já foi abordada por Moscheta em obras como Arrasto, que segue ocupando a Casa do Bandeirante, em São Paulo, até 10 de abril. Na instalação, um grande desenho de uma queda d’água do Rio Tietê, submersa pelas águas da represa de Nova Avanhandava, é ladeado por estantes que apresentam coletas referentes a cada margem do rio Tietê. De março a agosto 2015, Marcelo Moscheta coletou, classificou e documentou rochas, argilas, areias e minerais diversos de toda a extensão das duas margens do rio. Aproximando arqueologia, geologia e o Ciclo Bandeirante Paulista, o artista compõe um armazém de memórias particulares e relatos para um pequeno museu de curiosidades.

As quedas presentes no título da mostra se referem, por tanto, ao constante e sistemático esfacelamento da paisagem terrestre promovido pelo homem. Talvez a origem desse processo esteja nas primeiras ferramentas desenvolvidas pelo homem. Em Homo Faber, Moscheta representa 40 pontas líticas em um conjunto de desenhos feitos com grafite sobre PVC. As pontas líticas são instrumentos talhados em pedra usados como armas de percussão ou ferramentas de corte. Elas também representam o primeiro índice tecnológico da história humana que marca a Idade da Pedra, junto com o fogo e o vestuário. Moscheta divide cada desenho em um campo, atribuindo características icônicas a cada instrumento representado. A característica de ícone, ou objeto de culto, é reforçada pela origem das imagens. O artista coletou as fotos das 40 pontas de arquivos públicos de museus espalhados pelo mundo.

O Trabalho dos Dias, de 2016, mostra uma “queda” recente. Moscheta justapõe um conjunto de “chapeiras” (suporte utilizado para fixar cartões de ponto em empresas) a uma imagem de um terikon, na Ucrânia. Os terikons, também chamados de spoil tips, em inglês, são montes construídos pelo homem com dejetos e refugos da indústria mineradora. Moscheta comenta o esforço de trabalho humano necessário para construir tal elevação topográfica na paisagem de uma cidade ao justapor a “chapeira” de cartões de ponto a imagem do terikon, que parece carregar, em forma de perfurações sistemáticas na imagem, o registro da passagem do homem pela paisagem. O relógio de ponto foi criado em fins do séc. XIX, nos EUA, com o objetivo de aumentar a produtividade e controlar o horário de trabalho dos funcionários por um empregador. Aqui, seu vestígio indica uma medida igualmente direcionada ao lucro e à exploração das forças de trabalho e de recursos naturais, já que os terikons apresentam riscos às populações de seu entorno, por conta dos constantes deslizamentos e de combustões subterrâneas.

Em Fundo Infinito, 2016, Marcelo Moscheta registra as ruínas de uma construção rudimentar – e igualmente insólita – no meio do deserto do Atacama. A edificação fragmentada parece fundir-se com a paisagem rochosa do deserto. A imagem registrada em chapas de offset sobre chapa galvanizada também aproxima cromaticamente as duas instâncias e parece comentar a falência do homem empreendedor, já que a figura parece desestruturada, em processo de queda, sobre a chapa galvanizada torcida. Porém, mesmo que em queda, o aspecto desenvolvimentista do homem aparece reafirmado pela estrutura de base da figura; uma pilha de blocos celulares perfeitamente alinhados e estáveis. O cimento celular é uma tecnologia relativamente nova (está empregada na construção civil brasileira há apenas 30 anos), e garante durabilidade, leveza, facilidade construtiva, além de contar com grande desempenho térmico e acústico. A justaposição de tal material à imagem da construção feita de pedras em frangalhos aponta para a futura permanência alongada de construções mais recentes e futuras. É o homem se sobrepondo à natureza.

O Deserto do Atacama também aparece na série Fixos e Fluxos, 2016. Nas obras, conjuntos de chapas de alumínio, compostos esquematicamente, trazem fotos de satélite do deserto. A cada quadrante, o artista acresce uma pequena placa de cobre com as coordenadas geográficas daquele espaço, registradas por ele em seu trajeto pela região em 2012. O sistema de mapeamento por coordenadas tem origem na Babilônia, tendo sido aperfeiçoado por Ptolomeu no séc. I ou II. O sistema, hoje imensamente aperfeiçoado pelo uso de satélites, é acessível a todos que tenham um aparelho compatível com a linguagem da geolocalização. Pode-se visualizar qualquer ponto da Terra com poucos comandos em aparelhos habilitados. A passagem de Moscheta pelo território do Atacama se torna absolutamente distanciada pela ótica do registro do satélite, desprovendo a jornada da imensidão e intempérie da região. Moscheta completa: “Meu método de construção dessa obra se assemelha à das antigas cartografias, onde a experiência do viajante era anterior à representação do território. O mapa era produzido somente após a visita do cartógrafo ao local a ser mapeado, e esse dado acrescentava a vivência do cartógrafo no território à sua representação. Nessa obra, o olho mecânico do satélite encontra a área por mim visitada três anos atrás e gravada com coordenadas em chapas de cobre. O meu deslocamento torna-se o determinante da escolha da imagem – uma paisagem nunca antes vista por mim, apesar de haver lá as marcas de minhas botas impressas no solo”.

Fixos e Fluxus (detalhe)
Finalmente, na série Positivo Singular, 2016, Moscheta apresenta uma série de dez fotografias de paisagens insólitas do deserto chileno sobrepostas com chapas de ferro que formam volumes que lembram o monólito do filme 2001, de Stanley Kubrick. A presença simbólica que o volume negro, de matéria não definida, trazia ao filme de 1968 tratava do sincronismo entre passado e futuro, como uma anunciação atemporal do destino desbravador do homem. A primeira aparição do objeto no filme se dá justamente no momento em que o ancestral do homem descobre que o mesmo osso que forma sua estrutura poderia ser usado como ferramenta e, finamente, como arma. Nas obras de Moscheta, no entanto, esse monólito está, sim, sujeito a passagem do tempo e, dada sua matéria ferrosa, adquire marcas da passagem do tempo, com oxidação e corrosão constantes. Os monólitos de Moscheta são, assim, sincrônicos como o de Kubrick, mas, construídos pelo homem, só tendem ao desgaste crescente.

“Sete Quedas”, individual de Marcelo Moscheta.
Abertura: 22 de março às 20h
Em cartaz até 16 de abril
Entrada franca

Galeria Vermelho
Rua Minas Gerais, 350 / 01244010 – São Paulo – SP
t: + 55 11 3138 1520
gabriel@galeriavermelho.com.br



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