Pedro Varela

“Sobre as águas”, com Pedro Varela e curadoria de Daniela Name

(Rio de Janeiro, RJ)

A galeria Luciana Caravello Arte Contemporânea recebe a partir de hoje a coletiva “Sobre as Águas”, com curadoria de Daniela Name e trabalhos de Pedro Varela, Amadeo Azar e Giulia Andreani.

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A exposição será composta por desenhos, pinturas, esculturas e instalações feitas com paleta de cores reduzidas, apresentando principalmente tons de azul e cinza que ora se apresentam quase negros, ora mais quentes e esverdeados. Os trabalhos são feitos em aquarela ou tinta acrílica bem diluída, e mesmo quando se trabalha em diferentes meios, o desenho continua sendo o eixo central das produções. O argentino Amadeo Azar apresentará aquarelas e trabalhos em papel tridimensionais que dão continuidade à produção que vem apresentando recentemente em lugares como Drawing Center em Nova York e em sua última individual na galeria Nora Fisch em Buenos Aires, todos baseados em sua pesquisa recente sobre Lygia Clark. Seus trabalhos misturam imagens de arquiteturas e formas geométricas que apontavam para um futuro utópico.

A veneziana Giulia Andreani, que mora em Paris, apresentará pinturas e desenhos sobre o período em que o escritor Stefan Zweig fugiu da Europa para viver no Brasil. O trabalho de Giulia parte da pesquisa de imagens e referencias históricas, misturando personagens famosos com desconhecidos, focando em questões políticas e psicológicas.

Pedro Varela busca fazer um inventário do imaginário dos trópicos, focando principalmente na visão do período colonial do Brasil e da América Latina como um grande paraíso selvagem, mas este paraíso é apresentado em tons de azul, gélido em alguns momentos. Este jogo poético entre cor e imagem questiona o estereótipo de um paraíso amigável.

O título da mostra remete de várias maneiras à pesquisa dos artistas. Fala tanto sobre a paleta de cores e a forma como trabalham com a tinta: diluída, aquarelada, sempre voltada para tons azulados, acinzentados ou esverdeados que podem chegar quase ao negro de uma fossa abissal. Fala também da origem dos artistas, que nasceram em cidades banhadas por diferentes águas (Amadeo – Mar del Plata, Giulia – Veneza e Pedro Varela, Niterói).

Leia abaixo o texto da curadora Daniela Name:
FILTROS E INFILTRAÇÕES

Tudo flui como um rio. O aforisma-síntese do pensamento de Heráclito parece inundar os trabalhos desta exposição, que navega pelas águas de três artistas litorâneos: a veneziana Giulia Andreani; o argentino Amadeo Azar, nascido em Mar Del Plata; e o niteroiense Pedro Varela, hoje abrigado pela serra fluminense.
A água foi nascente para muitos diálogos e pontos de contato entre os trabalhos reunidos aqui. Água como recurso de diluição e de amortecimento de faturas, tanto nas aquarelas quanto na pintura de pincelada quase transparente, sutil e propositalmente ambígua. Água como território mole, dobra simbólica, forma que revolve suas estranhas e revisita a si mesma para ser igual e diversa a um só tempo, ornamento barroco ou lembrança de origami.

Água que é matéria-prima incontinente, sujeita às flutuações de correntezas, assim como a memória. Água capaz de gerar infiltrações e esquecimentos, velaturas, vapores, neblinas. Água que filtro, separando aquilo que importa na correnteza de imagens do mundo e da história. Água que turva, sugerindo desaparecimentos e aparições, engolindo o mundo e o regurgitando, numa constante troca de oferendas. Água como suspensão de fronteiras, passagem entre mundos. Água que é de todas as cores, mas em nossa imaginação corre muito azul, gama de tons que é um emblema para a arte – da Turquia a Klein, da China a Cézanne ou Matisse. Água como inconsciente, imaginação e o colo poético de uma grande mãe.

Andreani tem alicerçado seu trabalho na pesquisa de imagens históricas. O conjunto de pinturas que apresenta na mostra se refere ao período que o escritor Stefan Zweig fugiu do nazismo na Europa para se refugiar no Brasil. A paleta azulada e cinza reforça a atmosfera simbólica e psicológica que vem marcando a trajetória da artista, que mistura retratos de personagens reais a um universo ficcional. A ideia de aparição – imagem exilada de seu mundo e instável aos olhos – é muito forte.

Azar apresenta uma série de aquarelas e trabalhos tridimensionais que criam uma espécie de jogo com o gesto construtivo e as formas geométricas. A noção de intercâmbio e de flutuação da forma está sempre presente, assim como a de um desenho virtual e elíptico, que tira partido do peso e da natureza dos materiais e cria planos a partir de dobraduras – as reais e as simbólicas. Ele revisita Lygia Clark na grande mesa montada na exposição, dialogando ainda com a memória da arquitetura moderna, tão importante e ambivalente na América Latina.

Varela é de certa forma o encontro destas tantas águas. Primeiro jorro e delta de nossas correntezas, o artista tem reforçado, em seus trabalhos mais recentes, a simbiose entre desenho e pintura, que assombra e movimenta sua obra. A monocromia em azul dá mais visibilidade às referências que transformam estas paisagens em um mosaico, criado com elementos que vêm de épocas e territórios muito distintos: seres marinhos que frequentaram cartas náuticas do século XVI podem habitar o mesmo universo de uma imagem contemporânea.

Os três navegam em seus próprios veios, mas se transformam em canal e ponte um para os outros na conversa visual que procuramos estabelecer. Obras que se tocam em uma deliciosa deriva, que não é naufrágio, e sim viagem e descoberta. Tudo flui como um Rio. É nessa Babel, ágora de tempos, culturas e geografias, que esta exposição se banha.

“Sobre as águas”, com Pedro Varela
Curadoria de Daniela Name

Abertura: 21 de janeiro, das 19h às 22h
Em cartaz até 20 de fevereiro

Luciana Caravello Arte Contemporânea
Rua Barão de Jaguaripe, 387 – Ipanema
Funcionamento: de segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 15h.
t: +55 21 2523-4696
contato@lucianacaravello.com.br



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