Últimos dias | “Teto verde”, individual de Juan Parada

(Rio de Janeiro, RJ)

A Amarelonegro Arte Contemporânea recebe até maio a instalação do artista Juan Parada, “Teto verde”, pensada especialmente para o espaço da galeria.

Teto verde é uma instalação especialmente pensada para o espaço da galeria, composta por uma centena de módulos ovais de porcelana preenchidos com terra, do qual brotam plantas. Alinhados, os módulos formam dois planos em ângulo, suspensos no ar por fios de nylon, sugerindo a forma de um telhado. Nesta instalação, o artista cria uma interseção entre a funcionalidade do design e a especificidade da arte, utilizando todo o espaço expositivo para, numa inversão, trazer o teto ao chão e desenhar uma paisagem na qual as pessoas circulam, criando um ambiente que é ao mesmo tempo artificial, mas também ditado pelo natural, pois o crescimento das plantas vai estabelecer formas e caminhos. Entre a assepsia da cerâmica esmaltada, branca, bem acabada e a imprevisibilidade do elemento natural, que cumpre seu próprio ciclo de vida, por vezes transbordando e rompendo os limites do recipiente, se estabelecem tanto tensões quanto diálogos possíveis entre rigor e imprevisibilidade, o inerte e o vivo, conforto e estranhamento.

Leia abaixo o texto de Daniela Name, feito especialmente para a mostra:

Com Teto verde, Juan Parada dá um salto – real e simbólico – rumo ao espaço. A instalação que compõe a mostra homônima na Amarelonegro amplia e aprofunda seu campo de pesquisa com esculturas feitas de cerâmica ou porcelana, plantas naturais e dispositivos low tech. A ideia de abrigo presente em um telhado aparentemente residencial e a menção ao tipo de construção ecológica, cada vez mais necessária nos dias que correm, reforçam a imbricada relação entre paisagem, escultura e tecnologia na obra do artista paranaense.
O jardim doméstico talvez seja o primeiro horizonte registrado e construído em nossa memória como paisagem. Se o jardim zen pode ser o espelho para uma vida harmônica nos palácios de Kioto, outros jardins foram um possível refúgio quando carne e pedra[1]começaram a se estranhar mais radicalmente com o crescimento das cidades no Ocidente. Parada cria um abrigo ambíguo: cobertura etérea e flutuante, plantação sem cercas. Seu jardim suspenso não se projeta da terra para o céu, escorrendo no sentido inverso como pequenas cachoeiras verdes, Babilônia silenciosa apontando para o chão da galeria.

A conjugação dessas duas direções – a estrutura que sobe, a vegetação que desce – aponta para a subversão que o artista faz em seu próprio processo criativo. Se por um lado vemos uma minuciosa composição de fios e esculturas, que evidencia o desenho do telhado feito no ar, por outro temos as plantas engolindo Euclides e a pretensão de uma geometria controlada. Há a linha feita dos pontos de cada peça escultórica, projetada; e há a linha fluida e orgânica da vegetação. Parte do engenho e da beleza deste trabalho vem da sobreposição e do ruído entre os dois desenhos: o virtual, traçado no ar, e o novelo labiríntico e incontrolável das plantas.

Há em Teto verde uma paisagem que também é suspensa metaforicamente, fica entre parênteses e nasce do entroncamento nem sempre amistoso entre a razão e o fluxo da natureza. Tal curto-circuito está na origem da invenção da paisagem como modo de pensar a relação entre o sujeito e algo além dele, artifício laborioso[2] e motor da arte desde seus primeiros vestígios. Com Seurat ou Caspar Friedrich, com Leonardo ou Robert Smithson, a paisagem foi e é experiência e algum relato sobre o mundo. Por ser gerada no embate entre a experiência daquilo que nos cerca e o discurso sobre ela, obrigatoriamente ficcional, a paisagem sempre será uma invenção de mundos. No invento de Parada, há algo ainda a se levar em consideração: o fato de a palavra “ecologia” ter origem no grego oikos, “casa”. Com seu Teto verde, o artista parece se debruçar no beiral das telhas desse nosso século XXI, para talvez semear uma casa capaz de abrigar, simultaneamente, a linha projetada e a linha da vida em seus cômodos de ar.

[1] SENNETT, Richard. Carne e pedra. Rio de Janeiro: Record, 2010 (Edição de bolso).

[2] COQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

“Teto verde”, individual de Juan Parada
Em cartaz até 22 de maio

Amarelonegro Arte Contemporânea
Rua Visconde de Pirajá, 111 – lojas 01 e 02
Funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 16h
T: +55 21 2549-3950
amarelonegro@amarelonegro.com



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