André Griffo apresenta nova individual “Predileção pela Alegoria”

(Rio de Janeiro, RJ)

A galeria Athena Contemporânea recebe a partir de hoje a nova individual do artista André Griffo, “Predileção pela Alegoria”. A mostra integra o Circuito Integrado de Galerias de Arte – CIGA, que tem início hoje.

Leia abaixo o texto da mostra, assinado por Ivair Reinaldim:
Mais do que o título de uma das pinturas apresentadas, podemos argumentar que “Predileção pela Alegoria” sintetiza a atitude artística de André Griffo em relação ao conjunto de trabalhos que vem desenvolvendo. Embasado na noção e na prática alegórica, Griffo não deixa de explicitar sua afinidade eletiva por esse conceito-chave, importante porta de entrada para a compreensão de alguns de seus procedimentos bem como de certos elementos visuais presentes em sua produção. Falar em alegoria é, de um ponto de vista literário, referir-se a uma figura de linguagem em que uma história é interpretada à luz de outra, como no caso de uma parábola, por exemplo, e, no contexto mais específico das artes visuais, evidenciar um modo de representação em que uma imagem, em geral figura humana, animal ou objeto, é empregada como signo de outra coisa, geralmente uma ideia abstrata ou noção moral, como o amor ou a liberdade. Tanto em um contexto quanto em outro, em síntese, a multiplicidade de sentidos que um mesmo elemento pode apresentar é traço fundamental da alegoria.

Em texto publicado em 1980, o crítico norte-americano Craig Owens alegava que “atribuir um motivo alegórico à arte contemporânea é aventurar-se em um território proscrito”, uma vez que a alegoria costumava ser entendida como antítese da arte. Na ocasião, o crítico identificava um impulso alegórico inerente a muitas propostas artísticas contemporâneas, contrariando o postulado modernista que defendia a autonomia da arte frente a outros usos e sentidos que as obras poderiam vir a apresentar e, ao mesmo tempo, que condenava a dependência de um meio artístico em relação a outro – especialmente da pintura frente à influência da literatura. O que Owens também explicitou, para além da noção convencional de alegoria, é que o impulso alegórico contemporâneo poderia ser identificado em trabalhos que procuravam conectar presente e passado, resgatando do esquecimento aquilo que estava de certo modo ameaçado a desaparecer. No caso da prática revisionista generalizada das artes visuais – e mesmo do revivalismo histórico da arquitetura –, tal conjuntura era marcada, entre outras coisas, pela apropriação de imagens provenientes dos mais variados contextos e temporalidades, fragmentos que, justapostos em um mesmo trabalho, passavam a ganhar novos significados.

As imagens que coexistem na superfície das pinturas de André Griffo, desse modo, aparecem como fragmentos ou ruínas, pois não se permitem reduzir a um todo homogêneo, a uma única interpretação. Guardam algo de sua proveniência, embora essa identificação com certo contexto originário permaneça em latência, em constante estado de ansiedade frente à possibilidade de novas interpretações; constituem-se afinal como imagens-enigma à espera de serem decifradas pelo espectador. Em geral, vemos nessas pinturas uma série de elementos arquitetônicos (grades, portões, janelas, piscina), que em si não definem um espaço real, mas combinam-se, uns próximos aos outros, no espaço da pintura; além disso, vasos de plantas, brasões e objetos cotidianos os mais diversos (torneiras, mangueiras, lâmpadas, ferramentas) também passam a habitar esse espaço ficcional criado pelo artista, problematizando a existência das demais imagens. Ora esses elementos são representados de modo enfático, construídos em suas minúcias, ora aparecem apenas insinuados, por meio da recorrência a esquematismos gráficos próprios do desenho técnico e/ou arquitetônico, acompanhados de pequenas legendas ou citações, o que vem a reforçar a pluralidade de sentidos que podem ser estabelecidos a partir de sua aproximação.

Esse impulso alegórico é igualmente explicitado no projeto “Andaime”, em que a estrutura, literalmente, de um andaime utilizado na construção e manutenção de edificações, é modificada com a inclusão de um arco de ogiva proveniente de uma igreja gótica. O ornamento, elemento combatido pela arquitetura funcionalista, modifica assim a natureza da estrutura, uma vez que sua aparição torna-se um corpo estranho à armação, ao mesmo tempo que a estrutura modifica a natureza decorativa do arco, inserindo o elemento estético num contexto que não lhe é nem um pouco usual. Isolada ou repetida, salientando sua propriedade modular, essa estrutura vazada passa a existir para além de qualquer sentido arquitetural (sem excluir essa identidade por completo), para tornar-se então escultura, objeto sem função utilitária. O uso do ornamento por parte de Griffo – arco de ogiva, gradis ou vasos de plantas – coaduna-se com e ao mesmo tempo reforça sua preferência pelo alegórico, uma vez que contradiz toda tentativa de redução da natureza da imagem àquilo que se vê. Para além de vasos de plantas, andaimes, grades ou piscinas, são imagens abertas, plurais, por vezes contraditórias, fios soltos cujas costuras de sentido precisam ser efetivadas pelo espectador.

“Predileção pela Alegoria”, individual de André Griffo
Abertura: 22 de maio, a partir das 19h
Em cartaz até 20 de junho

Athena Contemporânea
Av. Atlântica, 4240 – 210, 211
Funcionamento: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábado, das 12h às 18h
T: +55 21 2513 0703 | +55 21 2523 3954
contato@athenacontemporanea.com



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