Zona portuária carioca é tema da coletiva “Do Valongo à Favela: imaginário e periferia”

(Rio de Janeiro, RJ)

A mostra coletiva “Do Valongo à Favela: imaginário e periferia” está em cartaz desde 27 de maio no Museu de Arte do Rio, com obras de André Komatsu, Armando Queiroz, Ayrson Heráclito, Bárbara Wagner, Caetano Dias, Caio Reisewitz, Grupo EMPREZA, Henrique Olivera, Laercio Redondo, Matheus Rocha Pitta, Paulo Nazareth, Virginia de Medeiros e Waléria Américo.

Sobre a mostra (texto dos curadores Rafael Cardoso e Clarissa Diniz):
A parte do Rio de Janeiro que corresponde hoje aos bairros da Saúde e da Gamboa pode ser considerada a primeira periferia do Brasil. Ao longo do tempo foi sendo transferida para a região uma série de atribuições indesejáveis para a porção da cidade considerada mais nobre. Com o aumento das atividades portuárias, o carregamento de mercadorias passou do antigo cais próximo ao Largo do Paço (atual Praça XV) para a Prainha (hoje Praça Mauá). Não somente ouro e diamantes escoados de Minas Gerais, como também a carga humana trazida da África, faziam parte desse tráfico de coisas e de gente. Já no século XVIII, o mercado de escravos se estabeleceu próximo dali, na Rua do Valongo, seguido de perto pelo Cemitério dos Pretos Novos. Os chamados “usos sujos” se multiplicavam*. A prisão do Aljube foi instalada em 1733, perto do trecho onde hoje se entroncam as ruas do Acre e Leandro Martins, enquanto o Hospital da Saúde – para doenças contagiosas – tinha sua localização entre a Rua da Gamboa e o Saco do Alferes, próximo ao Cemitério dos Ingleses. Volta e meia, a Forca Pública era armada na Prainha e os condenados levados à Igreja de Santa Rita para receber as últimas consolações.

Por entre processos de marginalização e, por vezes, degradação, a região foi se transformando em lugar de pobreza, violência e morte – limite e espelho da cidade que prosperava na faixa estreita entre o Morro do Castelo e o de São Bento e cuja população abastada começava a se espalhar para as novas freguesias ao oeste e ao sul. A desigualdade entre essa e outras partes da cidade foi confirmada, no final do século XIX, pelo surgimento da primeira favela, no Morro da Providência, a poucos metros de onde antes existiu o mercado de escravos. Diante desse cenário, no início do século XX, a Saúde era o local mais temido da cidade, na perspectiva de muitos que moravam noutras partes do Rio de Janeiro. Seus “bambas”, “malandros” e “capoeiras” eram o assunto predileto das reportagens policiais. E ali, a meio caminho entre o porto e a favela, na chamada Pequena África, entre o preconceito e a resistência à dura realidade social, nasceu o samba, acalantado pelos estivadores e pelas prostitutas que frequentavam seus botequins.

Tomando essa história de exclusão como ponto de partida, a exposição “Do Valongo à Favela: imaginário e periferia” examina como foi sendo formado o imaginário cultural dessa periferia, por meio de sua presença na arte. A mostra cria um percurso desde as imagens antigas do lugar e das atividades ali decorridas, até a elaboração da favela como questão de interesse da arte para muito além dos limites geográficos que lhe deram origem. Hoje, as ideias de “periferia” e “periférico” são de importância vital para a arte contemporânea, colocada aqui em diálogo crítico com vestígios de um passado que vai sendo revisto e reinventado. A favela, em sua relação com a região portuária do Rio de Janeiro, tem longa história, sendo parte fundamental dos modos de memória e de vida do Brasil. Precisa de visibilidade para que o respeito, devido a todos, alcance também os que foram sempre excluídos e postos à margem.

“Do Valongo à Favela: imaginário e periferia” ocupa integralmente o terceiro andar do MAR, reunindo ampla seleção de imagens e obras divididas em oito núcleos significativos. São eles: Praia Formosa, Rua do Valongo, Pequena África, O Bairro Rubro, Praça Mauá, Problema Social, Fato Estético e Periferia é periferia.

Artistas participantes:
Albertino Cavalieiro, Alfredo Storni, Almiro Reis, Ambroise Louis Garneray, André Komatsu, André Parente, Arjan, Armando Queiroz, Arthur da Saúde, Augusto Earle, Augusto Malta, Ayrson Heráclito, Bárbara Wagner, Belmiro de Almeida, Borger Lipinski, Caetano Dias, Caio Reisewitz, Carlos Chambelland, Carlos Vergara, Chlau Deveza, Di Cavalcanti, Djanira, E. B. Sigaud, Eliseu Visconti, F. T. Marinetti, Geraldo Pereira, Geraldo Viola, Giovanni Battista Castagneto, Grupo EMPREZA, Gustavo Dall’Ara, Heitor dos Prazeres, Henrique Oliveira, Hélio Oiticica, Hipólito Caron, Inimá José de Paula, J. M. Rugendas, J. Zigler, Jean-Baptiste Debret, José dos Reis Carvalho, José Pancetti, Juan Gutierrez, Laercio Redondo, Lasar Segall, Léonard Tsuguharu Foujita, Lívio Abramo, Louis Boulanger, Lucia Rosa, Luiz Morier, Lygia Pape, Marcelo Cidade, Maria Buzanosvsk, Mario Cravo Neto, Matheus Rocha Pitta, Miguel Rio Branco, Moreira da Silva, Muricio Hora, Nadia Taquari, Paulo Nazareth, Raul Pederneiras, Regina Katz, Rosalbino Santoro, Tarsila do Amaral, Vhils, Victor Frond, Vieira da Silva, Virginia de Medeiros, Waléria Américo, Wellington Ferreiro e William John Burchell

Mostra coletiva “Do Valongo à Favela: imaginário e periferia”
Em cartaz até 15 de fevereiro de 2015
Visitação: terça a domingo, das 10h às 17h

Museu de Arte do Rio
Praça Mauá 5 – Centro
Rio de Janeiro / Rio de Janeiro / Brasil
55-21-3031-2741
info@museudeartedorio.org.br



O PIPA respeita a liberdade de expressão e adverte que algumas imagens de trabalhos publicadas nesse site podem ser consideradas inadequadas para menores de 18 anos. Copyright © Instituto PIPA