1ª Bienal do Barro se encerra neste final de semana

(Caruaru, PE)

Um olhar multidisciplinar e complexo sobre o barro em uma cidade que tem o artesanato em argila como parte fundamental de sua identidade. A 1ª Bienal do Barro, que chega a seus últimos dias em Caruaru, no Agreste do estado, tem como o mote a reflexão sobre o lugar da arte a partir do uso desse material, que faz parte de um tripé que define a cidade: o artesanato, o forró e a feira.

A exposição ocupa dois locais da maior cidade do Agreste, com obras de artistas contemporâneos e uma revisão de uma das figuras mais emblemáticas da cidade, o Mestre Vitalino. Organizada pelo artista Carlos Mélo a mostra tem curadoria de Raphael Fonseca.

Um dos dois espaços expositivos da bienal é a Fábrica Caroá, uma das edificações mais emblemáticas de Caruaru. O local abrigará o Núcleo Contemporâneo, com obras de artistas do Brasil inteiro. A história do próprio espaço expositivo e da apropriação do barro na cidade serviu como matéria-prima para as obras expostas, originadas de residências artísticas com durações variadas.

A exposição traz dezesseis artistas: Armando Queiroz, Clarissa Campelo, Daniel Murgel, Deyson Gilbert, Ivan Grilo, Jared Domício, Jorge Soledar, José Rufino, Laerte Ramos, Leila Danziger, Luísa Nóbrega, Marcone Moreira, Nadam Guerra, Presciliana Nobre, e dois representantes pernambucanos: José Paulo e Márcio Almeida.


O curador Raphael Fonseca, do Rio de Janeiro, trouxe para a seleção das obras a curiosidade em saber como o barro e Caruaru se encontraram. “A cidade tem o artesanato como ícone, mas também tem uma vocação comercial e industrial. Qual é o passado e o presente do uso da cerâmica e como a ideia de ‘popular’ se articula com isso? Às vezes, usamos termos como ‘popular’ e ‘arte contemporânea’ para classificarmos as coisas, mas a exposição traz uma reflexão maior sobre o que esses termos significam”.

Entre os trabalhos idealizados para a exposição estão performances, como a de Luiza Nóbrega, que, a partir de hoje, vai moldar um bloco de barro em torno de sua mão direita e esperará o material secar até a segunda-feira, como forma de mostrar a ação do tempo sobre a argila. Já Nadam Guerra elaborou uma história fictícia sobre uma entidade chamada Nossa Senhora do Alto do Moura, que apareceu no Apocalipse e teve doze filhos, que serão representados por figuras de barro. Já Deyson Gilbert vasculhou o depósito da fábrica e tirou dele objetos – entre eles uma espingarda gigante – para revisar os mitos simbólicos sobre os quais o Nordeste está assentado.

Segundo o idealizador da mostra, Carlos Mélo, o primeiro embrião da bienal surgiu em 2006, a partir de uma vontade sua de fazer um projeto em artes visuais para Caruaru. “Nunca houve uma bienal do Barro no Brasil. Ao mesmo tempo, percebi a negligência com a qual as artes visuais foram tratadas e decidi trazer uma discussão estética sobre isso. A partir disso, surgiu a ideia de usar a Fábrica Caroá, para fazer um acerto de contas com a história e a memória da cidade. É muito importante que os espaços simbólicos de Caruaru sejam reativados e, para isso, é fundamental ter a participação da população. Só assim a bienal terá utilidade”.

NÚCLEO HISTÓRICO
Exposição “Verger e Vitalino”, que enfoca o trabalho do Mestre Vitalino através das lentes do antropólogo francês Pierre Verger. São 21 imagens tiradas em 1947, trazendo o artesão em vários momentos, seja na feitura de suas obras, seja na feira de Caruaru, onde ele as vendia. As fotografias também mostram crianças manuseando o barro, em uma referência direta ao início da arte do próprio Vitalino. As imagens fazem parte do acervo da Fundação Pierre Verger, em Salvador, e a curadoria é de Carlos Mélo. O local também abrigará a instalação Loks, da artista alagoana radicada em Caruaru Presciliana Nobre, com garrafas feitas de argila, trazendo o nome de uma marca de cerveja escrita ao contrário. Tanto a exposição de fotos quanto a instalação acontecerão na Galeria de Artes Mestre Galdino, localizada no Sesc Caruaru.

FÁBRICA CAROÁ
Localizada ao lado do Pátio de Eventos de Caruaru, a Fábrica Caroá, antigo ponto de referência da cidade, foi fundada em 1935 e desativada em 1978. O parque industrial extraía a fibra do caroá, uma planta, para fabricação de materiais como estopa, sisal e cortiça. “A primeira vez que Caruaru viu luz elétrica foi nas dependências da fábrica”, afirma Carlos Mélo, idealizador da Bienal do Barro, O local, com 4.800 metros quadrados, também abriga um museu, dedicado a resgatar o legado da fábrica, mas o espaço está, atualmente, de portas fechadas.

* fonte: G1 Pernambuco

1ª Bienal do Barro

Núcleo Contemporâneo
De 12 de abril a 19 de maio, das 10h às 17h.
Fábrica Caroá – Praça Coronel José de Vasconcelos, 100, Caruaru.

Núcleo Histórico
De 14 de abril a 19 de maio, das 9h às 21h
Galeria de Artes Mestre Galdino (Sesc Caruaru)



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